a mão que tira e a que dá


(Continuo, sonhador, na carteira escolar. Afinal, é preciso entender prá não ter de crer "quia absurdum", nem decolar no "não estou nem aí").

A mão que tira é igual à que dá. Daí que, quando vão na mesma direção, é um "mata e esfola".

De tudo o que o Governo Federal tira em impostos, receitas e contribuições sociais, o glutão fica com o equivalente a uns 17.3% do atual pibinho. O resto é transferido para estados e municípios para gastos com saúde, educação primária e secundária, dentre outros.

Tal como acontece com muitos de nós, sobra sempre mes no final do ordenado. Os gastos do Governo Federal com pessoal, previdência, outras despesas correntes e de capital batem em uns 19,6% do famoso pibinho. Logo é preciso usar cheque azul, papagaio no banco, todos os recursos imagináveis para fechar as contas. E "olha as dívidas interna e externa aí, gente!". Dívidas que têm de ser pagas ou roladas, e demandam amortizações do principal e juros, desfilam pela Avenida.

O serviço da dívida pública brasileira equivale a mais de 6% dele, o pibinho. Maiores, só os gastos com previdência (8,1%) que incluem - atenção! - pagamentos que não constituem a rigor despesas previdenciárias, como os benefícios pagos a trabalhadores rurais que não chegaram a contribuir para a Previdência. Esse tipo de benefício é na verdade prestação de assistência social, mais que justificável, necessária na realidade do país, a exemplo da Bolsa Família cujo total, por sinal, limita-se a 0,5% do PIB.

O "apocalíptico" deficit da previdência é portanto menor do que se trombeteia. As contribuições sociais que o Governo Federal recolhe para, em tese, atender às dspesas da Previdência chegam a cerca de 5,7% do valor do PIB. Não dá para olhar pro lado e fingir que não exista:. Se é verdade que a parcela de despesa de assistência social pura tende a reduzir-se com o tempo, os gastos com aposentadoria, pensões e demais benefícios aumentarão inexoravelmente à medida em que aumenta a perspectiva de vida de todos nós. Como o elixir da longa vida não chegou só no Brasil, praticamente todos os países do mundo em que existe um sistema previdenciário minimamente confiável estão, por isso mesmo, ajustando seus regimes à maior longevidade de seus beneficiários.

O ajuste, inadiável que se pode e deve fazer gradualmente, é o das idades mínimas para aposentadoria. Se essa idade é hoje diferenciada, por razões que em princípio o justificam, aplique-se o mesmo fator de reajuste aos diferentes casos e vamos em frente. Como a história não acabou, o processo de reajuste da previdência à dinâmica da demografia terá de ser periódico e permanente.

O que não dá para aceitar, o golpe baixo, o "gosto de levar vantagem em tudo" é tentar aproveitar a oportunidade para retirar benefícios de quem deles mais precisa. Procurar à solapa dar marcha atrás em conquistas sociais essenciais para que a iniquidade e o desequilíbrio não escapem de vez ao controle da sociedade. De todos nós.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso