A coisificação do escravo


The Human Tradition in the Black Atlantic, 1500-2000, que tem entre seus editores a pesquisadora brasileira Beatriz Manigonian, é um documento precioso.

Primeiro porque põe em relevo a contribuição determinante da África Negra à formação das Américas. Somos sim parte do mundo ocidental (o que não é a mesma coisa do ocidente da OTAN), nas instituições e valores herdados da Antiguidade via Europa. Mas graças à contribuição da África Negra somos um ocidente plus. Não necessariamente melhor. Sem dúvida, diferente.

Segundo porque com biografias literalmente exemplares de uns poucos viventes dos cinco séculos em exame retrata a diáspora negra e seu legado de que tanto nos beneficiamos e que temos já, em boa parte, incorporado a nós, nosso modo de ser e de pensar, indepentemente do tom de pele e da origem dos avós conhecidos.

Terceiro porque todas as biografias tiveram de ser traçadas a partir de registros impessoais e certidões circunstanciais. A coisificação do escravo, também no caso do escravo negro, não lhe deixou quase nunca a memória em primeira pessoa, o testemunho com cara e cicatriz. A dissolução da identidade, individual e grupal, serve sempre à violência da servidão.

Rufino José Maia, muçulmano do Golfo da Guiné, como escravo e homem livre correu brasis, cozinhou em navio negreiro, ensinou o Corão por onde andou e foi repetidamente preso sob suspeita, aparentemente infundada, de participar da resistência dos Malês. O segundo biografado no Brasil é Vicente Ferreira, Mestre Pastinha, nome maior da Capoeira Angola. Duas vidas fascinantes.

Mimo extra: o livro traz bibliografia e filmografia cuidadosas.

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