Salve Pepetela!


Angola nos deu alguns dos melhores escritores da língua portuguesa. Antonio Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela, traçou alguns dos quadros mais vívidos de cada momento maior na história de Angola. A admiração que inspira a capacidade de Pepetela de identificar e interpretar etapas definitórias da vida de seu país renova-se com a leitura de seu último romance: Se o Passado não Tivesse Asas (2016).

Repassemos. Lueji: O Nacimento de Um Império recupera as raízes de Angola, fator amplamente dominante na formação da nacionalidade.

A Gloriosa Família recupera a aposta holandesa para dominar, na primeira metade do século XVII, as duas pontas do tráfico de escravos e do açúcar: Luanda e Recife-Olinda. Mais uma experiência comum a brasileiros e angolanos, da qual pouco em geral sabemos deste lado do Atlântico.

A Geração da Utopia narra os sonhos de independência dos estudantes angolanos na metrópole portuguesa e as suas primeiras frustrações. Mayombe amarga a miséria da guerra contra o jugo colonial, no meio da mata.

Com a Parábola do Cágado Velho vêm a perplexidade e a dor da guerra civil, patrocinada de fora como sempre, que se arrastariam por décadas.

Os Predadores escancara a brutalidade da riqueza e da ambição sem limites . O milagre angolano – mais uma cicatriz em comum para os dois povos - e as novas formas de coisificação das pessoas.

Se o Passado não Tivesse Asas nos traz uma reflexão doída e consciente sobre a vida das personagens anônimas e vítimas silenciosas de tanta história. Nos deixa a um só tempo o conforto da reafirmação da honestidade dos propósitos de uns e a resignação de outros com a persistência da "ditadura da ganância”.

A obra de Pepetela não se resume a esses títulos. Há várias outras novelas, de fundo histórico ou não, além das desventuras do impagável agente secreto Jaime Bunda. Em toda ela, a narrativa elegante que nos enreda e faz pensar sobre a sorte da gente que nela vive, saída da paisagem e da memória angolanas.\

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