O brasileiro invisível


Faz muito tempo que li O Homem Invisível, de H. G. Wells, embora não seja verdade que o tenha lido cheirando ainda à tinta da primeira edição em 1897...Tantas décadas que tive de me socorrer do Google para recompor a estória. Sim, Dr. Griffith foi mais um alquimista atrás do poder sem igual. Buscou-o na invisibilidade. Perdeu-se por não conseguir voltar a ser visível sempre que desejável ou necessário.

O noticiário do Congresso, a cobertura dos Palácios, a crônica das antessalas do Poder e as conspiratas, sussurros e muxoxos com que nesses santuários se trama, com triste frequência, em favor de interesse próprio ou de terceiros com generosas carteiras, muitas vezes trouxeram-me a assustadora ideia de levas de mandatários invisíveis. Invisíveis mas capazes de atuar sobre o mundo tangível, regulá-lo e governá-lo. O mais discretamente possível, no anominato se der, retendo sempre a capacidade de vagalumear aqui e ali para manifestações retóricas de compromisso com quem os mandatou e pode enfim revogar-lhes o mandato.

Há décadas também li sobre a demonstração inequívoca por um mestrando do tema de seu trabalho: a invisibilidade social. Uniformizou-se de servente e frequentou, por dias, salas e auditórios de seu quotidiano acadêmico sem nunca ter sido reconhecido, nem ter de responder a um simples bom dia. Invisível a toda a gente, o servente não tinha o poder de alterar minimamente que fosse a realidade do seu entorno e sua própria realidade. Sentimo-nos quase todos, hoje, em situação comparável, em termos de invisibilidade política.

Os brasileiros invisíveis que somos, não procuramos essa invisibilidade, nem muito menos pensamos valer-nos dela para tutelar aberta ou sorrateiramente a vida social. Atribuem-nos essa invisibilidade. Somos, reiteradamente, ignorados como se invisíveis fossemos.

Os mais recentes capítulos da triste comédia de erros que vivemos foram recuos dos profissionais da invisibilidade no poder. Têm razão: exageramos um pouco no tamanho do fundão. É verdade: doações secretas são incompatíveis com democracia. Vai ver até se nos foi a mão com esse tal de distritão, assim, soltinho no tempo e espaço.

Estamos longe do desfecho dessa novela. Só com o rescaldo de 2018 teremos uma melhor ideia das próximas e eletrizantes séries que nos aguardam. Os recuos de ontem e trasanteontem não passam muito provavelmente de recuos táticos. Os profissionais da invisibilidade não têm ainda resolvidos dois desafios portentosos: como escapar da guilhotina e assegurar a sobrevida política com razoável expectativa de impunidade. Mas como foi gostoso de repente sonhar que os profissionais da invisibilidade reconheciam e temiam os brasileiros invisíveis.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso