A câmera de Chichico "roubou" a alma da nossa gente


Até hoje, mundo a fora há quem tema perder a alma na fotografia. Muitos mais seguramente serão, hoje, os que não querem ter sua foto em mãos de possíveis profissionais de regimes do medo. Ressalva feita, volto à captura da alma pela imagem. E vou à maravilhosa exposição das fotografias de Chichico Alkmim, com curadoria de Eucanaã Ferraz, no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro.

Chichico fotografou, de 1912 a meados dos anos 50, as gentes e as terras de Diamantina. Quando saiu detrás da câmera, passou mais alguns anos até sua morte em 1978, organizando a obra de sua vida inteira, mais de 5 mil negativos de vidro incluídos.

Documentou a cidade, suas casas, o sobe-desce das ladeiras da cidade. Mas também - sorte a nossa - fotografou no cômodo que lhe serviu por décadas de estúdio, a elite do poder e as primeiras gerações de negros livres, meninas de tranças e bordados, trabalhadores descalços e enfarpelados, famílias inteiras roupidas para seus batismos e enterros.

A qualidade da imagem faz esquecer a singeleza do equipamento e - injustiça grave - a minimizar o engenho admirável no controle da luz e na "direção de cena". Exatamente isso: a realidade ensaiada. Não há instantâneos. Mesmo as imagens de rua são posadas. E nos limites do estúdio de que era o senhor absoluto, Chichico captura mais que a alma o como cada um de seus fotografados gostaria de parecer e quereria ser.

Haverá algo mais revelador?

#ChichicoAlkmim #InstitutoMoreiraSalles #EucanaãFerraz

©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso