o homem caranguejo e o rio sem plumas


Solange e eu nos preparamos como quem vai a uma festa. Começamos por reler os versos exatos e descarnados de João Cabral de Melo Neto. Deixamo-nos descer Capiberibe abaixo com o cão sem plumas daqueles versos quase secos e de tantas imagens aprisionadas, "Na paisagem do rio difícil é saber onde começa o rio; onde a lama começa do rio; onde a terra começa da lama; onde o homem, onde a pele começa da lama; onde começa o homem naquele homem."

Não era para menos. Deborah Colker e sua incrível companhia de dança. O cão sem plumas. A viagem que se completa no filme-dança de Gringo Cardia, sincronizado ao fundo. A música dura, hipnotizante de Jorge Dü Peixe, da Nação Zumbi. A força inesperada da monocromia da lama/terra/areia quebrada, em raros momentos, pelo branco sem mácula ou o preto denso.

No mais brasileiro e nem por isso menos universal dos trabalhos de Deborah Colker a perfeição - como em Cabral - é de rigor. Nada sobra. Os homens caranguejos e os caranguejos homens raspam a vida que lhes cabe do mangue e das margens assoreadas. "Como o rio aqueles homens são como cães sem plumas (um cão sem plulas é mais que um cão saqueado; é mais que um cão assassinado. Um cão sem plumas é quando uma árvore sem voz. É quando de um pássaro suas raízes no ar. É quando a alguma coisa roem tão fundo até o que não tem).

Estranho o poder da Arte. Quando se chega ao fundo (que já não existe), a beleza do trabalho em todos os suportes e em todas as expressões concitadas por Deborah Colker e companhia, toma-nos com uma alegria silenciosa. Sim, senhor. É de avarandar corações.

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©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso