O silêncio das ruas, a surdina no Congresso e o me engana que eu gosto no Planalto


O silêncio das ruas no antes e depois da sessão da Câmara do dia 2 reflete o constrangimento de tucanos, petistas e tantos outros de falar em corda em casa de enforcado. As ilusões perdidas, as bandeiras murchas de decepção. É também a aposta de "real politik" de alguns outros, da mesma plumagem ou o mesmo credo, de que um Presidente vulnerável e um Congresso cúpido zeram o jogo para 2018 na bacia dos pecados. Se calhar essa tempestade perfeita ainda revigora cavaleiros cansados e feridos, e, uma vez mais, tempera de indulgência a amnésia nacional. Afinal, se não se pode sempre perdoar, quem sabe não se pode simplesmente esquecer.

Se já soubesse colocar fundo musical no blog, punha na vitrola Nelson do Cavaquinho: "vou abrir a porta, mais uma vez podes entrar, é dia das mães e eu resolvi lhe perdoar"...

Já no Congresso, o "day after" é de surdina no piston (saudade de Billy Blanco). Foram quase todos conversar sobre única coisa que parece contar realmente: a reforma política que impeça a festa da guilhotina e viabilize para os já denunciados, indiciados ou condenados - e os que se vêm na iminência de sê-lo - o abrigo de uma legenda e a possibilidade aditivada de um mandato - chave pro foro privilegiado e alternativa menos pior pro fim da impunidade garantida.

É tempo de sussurros, conspiratas e cochichos. Com tanta coisa por fazer, tanto cargo por pleitear, tantos bombocados por repartir vai faltar naturalmente tempo pras chamadas reformas. Nos 60 as reformas de base eram o refrão da esquerda, nos quase 20 de agora o rótulo tem novos donos e conteúdo.

Assim quem espera talvez não alcance. Temer tem na mão o Congresso ou está nas mãos de congressistas com agenda (im)próprias e (im)publicáveis? Editoriais de O Estado de São Paulo documentam a sequência da esperança dos que defendem a sobrevida de Temer como a perspectiva de aprovação de amplas reformas da previdência e tributária e, já hoje, de sua indignação ante a possibilidade de que a montanha afinal venha, outra vez, a parir um rato: um bilionário fundão eleitoral custeado pelo orçamento e administrado pelos dirigentes de nossos muitos partidos políticos. O último editorial foi de alarme.


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