Quem paga a conta?


Quem paga a conta como sempre somos nós. A Câmara de Deputados recusou ontem, 2, autorização para que denúncia contra o Presidente por crime comum fosse examinada pelo Supremo Tribunal Federal. Foram 263 votos a favor de Temer, pouco mais da metade dos 513 membros da Câmara. Infelizmente isso não quer dizer que 263 deputados acreditem na inocência do Presidente. Na verdade, nem o Presidente pretexta inocência.

Quem votou pelo desconhecimento da denúncia, amparada em gravações publicadas e reproduzidas amplamente? Quem, com o Presidente, quer promover esse deslembrar de milhões de pessoas?

Há, aparentemente, os apaixonados, tatuados com o nome de seu ídolo ou, mais discretos, recolhidos à adoração silenciosa. Há também os que acreditam que essa amnésia geral seja garantia para recuperação e estabilidade da economia, a despeito do truísmo de validade universal de que a seriedade e a honestidade na política e nos negócios seja o verdadeiro fiel da balança.

Os guardiães da estabilidade escudaram-se, uma vez mais, na autoridade da palavra de Delfim Neto: “A situação deixou de piorar” e seria um equívoco agir com base em “delação premiada induzida que salvou o chefe da quadrilha”. Preocupa-me, nesse particular, que se possa ver o mais alto mandatário de um país, do meu país, como membro menor de uma quadrilha.

A “base” de Temer, no caso, não se compôs, infelizmente, somente de convertidos e de defensores de um pragmatismo aético. Mais preocupante que esses são os muitos outros, identificados quase sempre com as chamadas bancadas da bala, da bíblia e do boi. O preço de seu voto pagaremos todos com as medidas regressistas e desprovidas de apoio democrático majoritário encomendadas com a benção e o empurrãozinho do Executivo.

Pagamos também o preço dos demais votos, dos fisiológicos e oportunistas de carteira assinada. As emendas parlamentares – mecanismo escandaloso de apropriação indevida de parcelas do orçamento do país – somaram nos primeiros sete meses R$3,1 bilhões. Nada menos que a terça parte do adicional a ser arrecadado com o aumento do PIS/CONFINS sobre combustíveis.

Pagamos ainda os cabides de emprego para gente desqualificada, incompetente e com frequencia associada a esquemas de corrupção. A tinta da caneta de Temer, como a de seus antecessores que usaram e abusaram dessa “moeda”, é a malversação da receita dos impostos e a sobrecarga, indefensável, dos gastos de pessoal.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso