Pelas mãos de Oscar e Stella


Com os netinhos pelas mãos, descobrimos Solange e eu o teatro lambe-lambe. Foi no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal do Rio, no minifestival Olhar Atento, com artistas brasileiros, argentinos e chilenos. Difícil dizer quem mais se maravilhou: se a primeira ou a terceira geração.

Lambe-lambes povoam nossas memórias, à sombra das praças da infância. Alguns mais felizes guardam mesmo fotos desbotadas e enobrecidas pelo tempo. Nunca tínhamos porém sequer ouvido falar do teatro lambe-lambe, montado, encenado e atuado em uma caixa parecida com as que trabalhavam os fotógrafos dos lambe-lambes na memória.

No Brasil, pelo menos, esse teatro encantador tem, ao contrário da caixa inspiradora, história. recente É classificado também como teatro de miniatura na lista, cada vez maior e mais interessante, de artes de animação.

O lambe-lambe com uma abertura para seu espectador único, coberta por um capuz de pano tal qual seu antecedente, é o palco, a caixa negra em que, por dois a três minutos, os dedos ágeis do artista moverão personagens e suas circunstâncias. Nos fones de ouvido, a criança e o homem ouvem a música e a narrativa que completam a estória. Quase sempre de pé as crianças, com o olhar preso à abertura da caixa. Sentados, os adultos, com a respiração suspensa e o olhar igualmente atento, no espetáculo de que são as únicas testemunhas e ao qual pronto se intregram e entregam, totalmente.

Terminada a encenação, o artista retoma caminho, com a caixa de magia às costas, à conquista generosa de mais gente pra ser encantada. Fica conosco o silêncio denso em que ressoa a experiência. A ligação direta e exclusiva, sem visão periférica ou audição acidental, entre o artista e o seu espectador exclusivo impõe aos dois esse silêncio momentâneo e respeitoso.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso