Pau é pau, e pedra é pedra


No Brasil, propina tem sentido de suborno. Não é bem assim nos demais países de língua portuguesa. Neles a propina pode ser tanto uma gorjeta quanto uma taxa a ser paga na matrícula escolar ou na filiação a um clube, ou mesmo o devido a um professor, orientador ou guia por seu trabalho.

Quando vemos as gravações de propinados e propinantes em ação na nossa linda Terra dos Papagaios espanta-nos que a propina pedida, ou oferecida e aceita, seja tratada como o pagamento devido por um serviço prestado.

Talvez não exista mesmo pecado ao Sul do Equador – o que pode até ser em muitos casos saudável. Mas seguramente a propina brasileira para uns e outros parece nada ter de corrupção, suborno, aliciante, porbaixo, bola ou peita.

É negociada com a cara limpa, e até mesmo em nome da responsabilidade de prover a família. Como algo normal, só que feito à margem da economia formal e longe do leão do fisco. Algo que está na competência do propinado fazer ou decidir, e para o que ele já recebe sua paga, no Executivo, Legislativo ou Judiciário.

Passarei ao largo das propinas acordadas no domínio privado. São igualmente nocivas à sociedade, acarretam também perdas para a economia e uma vida ainda mais difícil para os que menos têm. Não implicam, porém, como as outras, a quebra do mandato expresso no voto ou do compromisso sagrado de servir – ponto central do serviço público.

Nos três poderes do setor público, o propinado – esse indisfarçável corrupto – quando vende um artigo de lei, reduz ou anula multas, desconta ou zera impostos, assegura a prestação de serviço já pago no imposto recolhido apropria-se criminosamente do que é prerrogativa do Estado.

A interação e o concubinato do público e privado não espantam no país do Pau Brasil. Lamente-se apenas que nessa dinâmica valha sempre a regra de socializar o prejuízo e privatizar os lucros.

A corrupção, o suborno, a quase asséptica propina são, no final, instrumento poderoso de acumulação de desigualdade. Pioram o que já é muito ruim. E ao debitarem seus custos universalmente a toda a sociedade, condenam o país e a todos nós à perda de competitividade, à pobreza e à iniquidade crescentes.

Chamemos pois propina de corrupção e suborno. Fica mais claro. E nos preparemos sim para propinar a corruptos, subornados e propinados uma clara derrota nas urnas.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso