O mundo não acabou, nem a história morreu


A história não morreu. Ainda se pode distinguir esquerda de direita, e viceversa, conquanto nenhuma possa reivindicar o monopólio da verdade e do bem. O capital financeiro, as indústrias e o setor de serviços têm interesses próprios e muitas vezes conflitantes. Afinidades ideológicas retêm peso na equação geral. Mas ninguém, nem mesmo um bolchevique congelado e ressuscitado se encresparia com a mesma emoção de antanhos ao brado à união dos proletários de todo o mundo.

Posições ideológicas de cristalina pureza sufocaram nos monturos do muro de Berlim. A rejeição principista a medidas econômicas de elementar bom senso desfaz-se no que sobrou de heterodoxias malsinadas. É claro que conta, e muito, como nos apropriamos dos bens neste mundo, distribuímos oportunidades, viabilizamos ou liquidamos o sonho de cada um. E tudo isso continuará a contar, também, na decisão dos eleitores.

Não há, porém, como negar que os votos dos eleitores e de seus supostos representantes no Congresso são definidos cada vez mais por outros vetores. Bancadas de interesse, como a ruralista, ou de identidade confessional, como a da Bíblia pesam, com crescente frequência, mais que as formações programático-partidárias.

Ninguém pode ficar indiferente a questões de transcendental importância como a corrupção, o racismo e temas de consciência como o aborto ou o casamento de pessoas do mesmo gênero. O divisor de águas aqui não é ideológico, nem mesmo necessariamente econômico, classista ou profissional. Mas existe, é bem real e cada vez mais ponto maior de clivagem na população.

Assim como estou convencido de que para nosso futuro será mais decisiva a qualidade da composição do Congresso do que intenções e virtudes de quem elejamos Presidente, também creio que esses temas e questões, muito mais que convicções ideológicas e programas partidários (conhecem alguém que tenha lido um que seja?) tendem a ser os fatores de maior peso na definição do voto de cada um de nós.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso