não é nada disso que Você está pensando, meu bem...


Não é nada disso que Você está pensando, meu bem...

Ou, por uma lógica perversa, absolve-se hoje por excesso de provas. E espera-se que a proposta de cegueira deliberada seja encaixada ou, melhor ainda, endossada por todos.

Oxalá, diferentemente da velha anedota, os parricidas não venham ainda a pedir também clemência à Corte, pois afinal são órfãos.

Reconheça-se o engenho dos enxadristas. Praticamente todos os partidos estão comprometidos com o festival recordista de corrupção. Quase todas as lideranças políticas estão igualmente envolvidas ou saem pelo menos queimadas dessa triste, mas comprovadamente necessária, sequência de operações. Estima-se que pelo menos um terço do baixo clero participe das sucessivas e criminosas tramas.

Em busca desesperada da salvação de seus mandatos e poupanças, apostam no silêncio perplexo das ruas e na inação organizada e cúmplice de entidades e partidos. Como no poema de Ricardo Reis/Fernando Pessoa, que importa à indiferença sobranceira dos jogadores de xadrez "a carne e o osso das irmãs e das mães e das crianças".

Pode até soar golpe baixo, trazer da memória texto tão inusualmente dramático do heterônimo pastoril de Pessoa. É legítima defesa. Ainda emocionado pela arrebatada argumentação do Ministro Napoleão (é mesmo o nome ou o alter ego?) de que é melhor um culpado absolvido que um inocente preso. Nada como essa garantia jurídica absoluta para os "homens de bem" que sem dúvida a merecem e dela claramente precisam. Não creio que o Ministro pense a sério de, por coerência, mandar esvaziar os presídios.

Governo e oposição, alto e baixo clero, mais discreta ou escancaradamente, celebram por antecipação, no tecnicismo equivocado, mal intencionado ou acovardado, a troca da justiça pelo direito. E – vamos ao que conta - a recuperação da perspectiva de impunidade.

Noves fora zero. A corrupção passa à categoria de pecado original. O TSE absolve-os a todos, governistas e opositores, com uma indulgência plenária às cenas de corrupção reveladas ou ainda encobertas. Praticadas a qualquer título. Para prover a família, o partido ou pra consumo próprio mesmo.

Mas se os iguala, uma vez mais, desta vez o resultado da partida não é um empate negativo, com menos um ponto pra cada lado na tabela do campeonato.

Todas as alminhas chegarão a 2018 com seu pecado original aliviado. E em igualdade de condições sai na frente, talvez com decisiva vantagem, os que têm mais fé, carisma e sedução. A sobrevida do governo desarticulado vira tarefa de tempo integral e dedicação exclusiva. E – surpresa! - poderá garantir o título à oposição. Mais precisamente a sua figura inquestionavelmente maior: Lula. A seu herdeiro. Ou ao poste que escolha para a ocasião.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso