E viva o teatro brasileiro!


E viva o teatro brasileiro!

Cansado das farsas de mau gosto, das falas vazias e grosseiramente inverossímeis que se repetem na cena política, tenho encontrado consolo na vitalidade do teatro brasileiro. Ficam as sugestões.

A Armazém Companhia de Teatro tem folha corrida (perdão, ficou até difícil mudar de idioleto...) de montagens criativas e ótimos textos. Seu Hamlet, descarnado, direto, transpõe toda a força de Shakespeare para o nosso hoje. E no aqui e agora, vale mais que nunca o dito por Paulo de Moraes na apresentação: neste cruzamento de tempo e espaço Hamlet não finge loucura, mas “prensado contra a parede, ele absorve a loucura de seu tempo e torna-se um sujeito destrutivo, atormentado e letal.”

Patrícia Selonk, com admirável interpretação, dá corpo, vida e veracidade ao Príncipe atormentado. Impossível não se identificar com sua sorte e com sua firme, conquanto desesperada, determinação de vivê-la até o fim. Uma vez mais a arte nos ajuda a enfrentar e – oxalá – exorcizar a desesperança, companheira – má e frequente – da desilusão.

Já a Companhia Barca dos Corações Partidos traz todo frescor e autenticidade de Ariano Suassuna no seu Auto do Reino do Sol. O grupo todo surpreende e encanta ao atuar, cantar e dançar um texto encantador costurado por Braulio Tavares, ao som de Chico Cesar e sob a direção mais que competente de Luís Carlos Vasconcellos – outro grande ator que dá provas de admirável competência também no ofício de dirigir.

A gente sai renovado do teatro. Nada como uma transfusão de brasilidade em estado puro para temperar o amargor e energizar a alma.


©2017 criado por Afonso José Sena Cardoso