A "lei de Gerson"


Faz tempo um dos melhores jogadores da seleção brasileira, Gerson, virou vendedor de uma marca menos conhecida e mais barata de cigarros. O anúncio terminava com um “gosto de levar vantagem em tudo” que, originalmente, deveria indicar que pessoas que valorizavam seu dinheiro e suas escolhas ficavam com o produto menos conhecido mas de qualidade comparável.

Hoje um atleta de elite como o grande Gerson ou mesmo um futebolista anônimo de fim-de-semana simplesmente não faria anúncio de cigarros. Os tempos eram outros, ainda que não em tudo. Era o tempo do Brasil Grande e da Ambição Virtuosa. Quanto a essa última ainda dá para comparar. E a frase feita pegou. Primeiro como prova de sabedoria dos sagazes. Depois, como corpo de delito dos carreiristas e alpinistas sociais sem limites.

Nosso “canhotinha de ouro” a quem devemos tantos momentos de futebol arte, acabou assim dando seu honrado nome à malafamada “lei de Gerson” e ao despudorado egoísmo que passou a rotular. Não é caso singular. Debita-se reiteradamente a Keynes e à consideração de que a longo prazo estaremos todos mortos muita solução de afogadilho, prova de indisfarçável quebragalho ou diversionismo de má fé.

O Professor Leandro Karnal tem pontuado suas análises sobre os sucessivos desvios e escândalos dos políticos brasileiros com observações igualmente importantes da “ alma brasileira “ tal como se manifesta nas ruas ou na calada da noite. Nesse trabalho cunhou, dentre outras, uma frase forte, das que se propagam rapidamente, e que, não raro, podem terminar parte do arsenal das recorrentes tentativas de justificar o injustificável.

Argumenta com toda a razão o Professor que não há políticos corruptos em sociedades que não convivem “normalmente” com a corrupção. Assim são parceiros constantes – mesmo quando não cheguem a formar dupla caipira – a sociedade e a política comprometidas pela corrupção.

Afastada cada vez mais de seu contexto original, limada e destorcida pela repetição sem critério, a afirmação reforça a venda da ideia de que, se somos todos corruptos, a corrupção de políticos não será exceção, nem constituirá elemento desqualificante para o exercício da política. Estaremos dissimulada e desavergonhadamente voltando ao “ rouba mas faz “?

Não se trata de ressucitar o discurso, tantas vezes hipócrita e histérico, do udenismo, mas nos tempos da transparência possível e mandatória, retidão de caráter e honestidade são requisitos cuja falta ou fragilidade nem o discurso ideológico bem encadeado, nem a melhor folha de serviços e méritos pode remediar.


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