A indulgência plenária


Sobrecarregado de passivos, Temer mobiliza todo o poder de fogo que lhe resta e engenho político na tentativa – que ainda assim pode resultar frustrada - de manter-se no poder e de não ter de responder na primeira instância às acusações que lhe são dirigidas. A vulnerabilidade de Temer e de vários de seus ministros e associados políticos , mais os flagrantes no mínimo constrangedores de Aécio põem a todos no mesmo nível. Equivalem a uma indulgência plenária a Lula e a todos os demais acusados no rastro de sucessivas operações.

Eventual substituição de Temer por Maia pouco altera esse quadro. É a carta na manga para a emergência de agravamento ainda mais problemático da crise política. Um enganoso e transitório descolamento da economia e política tende a apaziguar, como aconteceu na Itália, os capitães da economia e os coronéis do voto.

O tempo conspira por um Fica Temer. Tácito. À falta de quem se disponha a assumir publicamente sua defesa às vésperas de ano eleitoral. Por outro lado, atalhos ao determinado pela Constitituição e legislação vigentes parecem claramente inviáveis ou antidemocráticos. Fora do “livrinho”, só “na forçação ou na marra”, o que levaria à repressão e ao fim ou suspensão de tantas das conquistas das últimas décadas, desde os anos 80.

O tempo é da mesma forma de essência para o encontro de uma fórmula de blindagem para Temer, que poderá servir também para Lula quando não puderem contar com foros privilegiados, mais confortáveis e previsíveis. Nada que espante a quem tenha memória. A inimputabilidade de Nixon em Watergate como pedágio para sua renúncia e tantos outros exemplos lembram-nos de que, em casos comparáveis, mais que a cavalaria contam os contorcionistas do direito.

Teremos sorte se tudo não se transformar em trem da alegria. Por isso, como sempre e mais que nunca, só o voto e a memória do eleitor podem efetivamente fortalecer a democracia.


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